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Portugal + Criativo

O desejo de estabilidade parece ser uma das ambições de qualquer ser humano. A paz, a tranquilidade, o bem-estar, a garantia de um futuro para os nossos filhos, são os sentimentos dominantes da generalidade das pessoas.  

Alguém dirá que está inscrito nos nossos genes porque somos uma espécie que exprime amor e tem o dom do altruísmo. No entanto, bem vistas as coisas, essa realidade tem um reverso. A nossa história, desde os primórdios hominídeos, é uma ininterrupta sucessão de conflitualidade e inquietude. Nas constantes guerras e crimes, mas sobretudo num incontrolável e incessante ímpeto de mudança. Há gente conservadora mas não há nada de conservador na espécie humana.  

Nesse sentido, ao contrário do que parece ser a nossa condição emocional, é a instabilidade que domina desde sempre as nossas sociedades. Instabilidade provocada pela vontade de vencer, de conhecer, de transformar. Instabilidade que permitiu ao homem construir cidades, melhorar as condições de existência, vencer doenças e maleitas, prolongar o tempo “natural” de vida, criar máquinas, arte e sonhos, descobrir mundos, aventurar-se no espaço, desvendar o muito pequeno e o muito grande, dominar, manipular e moldar a natureza. Não há hoje nenhum recanto deste veículo chamado Terra onde nascemos que não tenha sido investido pela mão do homem. Nem nada que nos impeça de nos tornarmos extraterrestres.  

Acresce que nas últimas décadas assistimos a uma impressionante aceleração tecnológica. E aquilo que era um efeito geracional passou a afectar directamente as existências quase já ao nível do quotidiano. Todos os dias surgem novas ideias, novos contextos, novas urgências e necessidades. Aquilo que se aprende uma vez tem de se reaprender repetidamente. Aquilo que parecia ser adquirido depressa se torna obsoleto. De tal forma que podemos falar de um desassossego tecnológico como característica deste nosso tempo contemporâneo. Até porque a tecnologia, tal como a conhecemos agora, não gera só a instabilidade própria da mudança, mas assenta nessa própria mudança.  

Nomeadamente as tecnologias digitais, pela sua impressionante capacidade de evolução e mutação, recriam sem cessar novas condições sociais, culturais, económicas e ambientais para cada um de nós e para a própria espécie no seu Todo. Ainda ontem vivíamos em países e hoje habitamos o mundo inteiro; ainda ontem sabíamos alguma coisa e hoje temos acesso a todo o conhecimento existente através da cintilante janela de um monitor; ainda ontem competíamos com os nossos vizinhos e hoje pensamos e agimos globalmente.  

De seres curiosos e irrequietos passámos a uma condição re-criativa. Sem criatividade, não é possível sequer existir, quanto mais progredir.  

A Inovação como Modelo de Desenvolvimento  

Criatividade e Inovação são muito mais do que um mero slogan em tempo de crise. São uma componente importante das nossas vidas, mas, sobretudo, são uma condição essencial para o desenvolvimento da sociedade em todos os seus aspectos, do cultural ao económico, do científico ao político. O modelo de desenvolvimento económico foi-se alterando nas últimas décadas, nomeadamente, passando de uma lógica de indústria pesada e capital intensivo, para a capacidade de acrescentar valor cultural aos produtos, vulgo design, e de inovar tecnologicamente os mesmos. A quantidade deu lugar à qualidade. A vulgarização foi substituída pela diferenciação.  

A necessidade de inovar vai, contudo, mais longe e é determinante, não só no produto em si, mas igualmente em todo o ciclo produtivo, desde o método de fabrico até ao seu destino último, quando transformado em lixo. As questões ambientais são agora muito importantes na vida de um qualquer objecto fabricado, a começar pelo impacto da exploração das matérias-primas até à sua reciclagem. Do mesmo modo, a componente humana, no meio social, ambiental e no trabalho, começa a ter bastante relevância para os consumidores e será seguramente cada vez mais decisiva para o sucesso ou fracasso económico de qualquer empreendimento no futuro.  

Não basta “embrulhar” um qualquer produto numa bela caixa. Criatividade e inovação têm de estar presentes em todo o processo, incluindo a forma como se organiza a empresa ou centro de investigação, que dão origem ao mesmo. Hoje, as questões organizacionais são decisivas, já que, entretanto, se percebeu que as velhas estruturas piramidais e de forte hierarquia são pouco eficazes quando se trata de promover a imaginação e a livre expressão criativa.  

Mas, quem fala de um produto comercial, fala igualmente de outras componentes da actividade social, cultural e económica.  

As escolas, as comunidades, as cidades também podem e devem ser criativas, do mesmo modo que é evidente a necessidade de inovar nas relações sociais, na política e na democracia.  

Que a criatividade e a inovação são hoje componentes essenciais para o sucesso da generalidade das actividades humanas, é um dado adquirido. A questão está em saber como é que se produzem.  

As condições ambientais  

Não é possível decretar a criatividade, mas é possível criar as condições para que ela possa emergir. Sendo certo que uma inovação pode surgir em qualquer contexto, mesmo na mais obscura masmorra ou até na mente de um analfabeto, está claro que alguns pressupostos são mais favoráveis do que outros.  

A liberdade é certamente a condição mais importante. Só através da livre expressão do imaginário é possível gerar processos de inovação. Muitas inovações começam por ser meras “ideias malucas” que só um contexto de tolerância e liberdade permite desenvolver. O conhecimento é outra condição decisiva. Não se pode inventar o novo sem conhecer o que existe. Inventar a roda pode ser um grande feito para um indivíduo desconhecedor do objecto, mas não tem qualquer interesse geral. Para além disso, só o conhecimento permite adquirir as ferramentas, conceptuais e tecnológicas, imprescindíveis para conceber e desenhar um processo, um evento ou um produto. A interacção social é igualmente uma condição fundamental. Um indivíduo pode ter muitas capacidades, mas as mesmas aumentam consideravelmente quando partilhadas e confrontadas com as capacidades próprias de outros indivíduos.  

O grupo é sempre mais poderoso do que o homem só. Nesse sentido, a tolerância para com os outros, nas suas diferenças e opções, é a atitude mais inteligente a ter. Do mesmo modo que os ambientes onde existe maior diversidade cultural, maior mistura de todos os géneros e comportamentos, são aqueles que mais favorecem a emergências de novas ideias e criatividade.  

Liberdade, conhecimento, tolerância e diversidade são os conceitos chaves de uma sociedade apta para gerar mais criatividade e inovação.  

Existe, contudo, um outro factor que muitas vezes não é tido em conta. A criatividade precisa de espaço para se desenvolver. Embora as componentes mentais e ambientais sejam a base de qualquer processo criativo, sem um espaço físico para a experimentação, nenhuma ideia consegue ver a luz do dia. A criação, para o ser efectivamente, é um acto sobre o real. Acrescenta, altera, mobiliza a realidade concreta. As boas ideias, fechadas numa gaveta, não servem para nada. Por isso as sociedades mais dinâmicas são aquelas onde os cidadãos, e em particular os mais jovens, têm espaços para exprimir, experimentar e desenvolver as suas ideias. São as escolas onde se aprende mas acima de tudo onde se faz; as empresas que estimulam a experimentação; as cidades onde existem espaços culturais para livre expressão de tudo o que é imaginável e sobretudo do inimaginável.  

De facto, a criatividade não se decreta, mas é possível e urgente promover as melhores condições, sociais, culturais e espaciais para que ela possa emergir.  

Cidades Criativas  

Nesta perspectiva, o papel das cidades vai-se tornando cada vez mais determinante. No novo contexto global em que soberanias e nações entram em declínio por via de uma incontornável interacção de tudo com tudo, os atractores civilizacionais, como podem ser descritos os grandes centros urbanos, reúnem pessoas, meios e ideias com uma densidade, diversidade e recombinação que não se encontra em mais parte alguma. É nas cidades onde se concentra o conhecimento e a sua aplicação; são as cidades que exibem a maior diversidade de expressões culturais e comportamentais; são as cidades que possuem a maior quantidade e qualidade de meios de concretização e produção. 

Do ponto de vista económico, é nas cidades que se encontra o lugar ideal para imaginar, projectar e programar os processos produtivos. A execução pode ser feita em qualquer parte. Do ponto de vista do conhecimento, é nas cidades onde se concentram as universidades e centros de investigação, onde acontecem as conferências, seminários e reuniões de cientistas, onde se apresentam as descobertas. Do ponto de vista cultural, é nas cidades onde acontecem as coisas, onde se gera a nova arte e se revelam ao mundo as grandes criações da imaginação humana.  

Por isso as cidades são os grandes motores da economia e do desenvolvimento humano. Ou, melhor dito, as cidades enquanto aglomerado e elevada concentração de pessoas. Nesse sentido, as cidades mais dinâmicas e competitivas são aqueles onde é mais agradável viver e onde se reúnem as melhores condições propícias à expressão criativa. Ou seja, onde existe liberdade, qualidade de vida, diversidade cultural, acesso generalizado ao conhecimento e às tecnologias.  

Mas isso não basta. O factor diferenciação é imprescindível. Não chega fazer como os outros, é preciso inovar também naquilo que é a marca ou identidade da cidade, de forma a gerar diferença e reconhecimento geral. Cada cidade tem de se apresentar ao mundo com uma cara própria, o que implica ser capaz de determinar e estimular tendências ou características diferenciadoras. E quando estas não existem é necessário criálas, de preferência através de processos participativos e interactivos.  

As cidades têm também um papel decisivo na promoção da criatividade e da inovação através da cedência de espaços físicos destinados em particular aos mais jovens para o desenvolvimento de projectos e experimentação. Este é, aliás, um dos aspectos em que as cidades portuguesas se têm revelado menos ousadas. A cedência de espaços a grupos e associações de jovens, gratuitos ou a muito baixo custo, é fundamental para a vivência de determinadas áreas urbanas, para além de constituir um pólo de actividades da economia criativa. Dedicados à música, artes, moda e pequenas empresas de novas tecnologias, estes locais são hoje uma das formas mais eficazes e praticamente sem custos de dinamizar zonas urbanas e promover a cultura e as actividades criativas. Infelizmente, entre nós, são muito raras as autarquias que entenderam os benefícios de um tal programa.  

Mecânica da criatividade  

Sabemos como a natureza é criativa e conhecemos hoje alguns dos mecanismos através dos quais se exprime essa criatividade. Alguns deles são comuns para a criatividade humana. De facto, observando os processos criativos é possível dividi-los em três modos distintos, ainda que muitas das vezes a inovação compreenda a sua combinação. O mais comum desses processos é a evolução, ou seja, a sucessão de melhoramentos introduzidos num qualquer objecto. A história dos automóveis é disso um bom exemplo, já que praticamente desde a sua invenção se mantêm algumas características estruturais, como as quatro rodas, o volante, o motor, os assentos, ainda que tanto a tecnologia quanto a morfologia tenham sofrido enormes melhoramentos. Outro processo criativo é o da recombinação, o qual basicamente consiste na amálgama de objectos ou partes de objectos muitas vezes de famílias distintas. Para nos mantermos nos veículos temos por exemplo o carro anfíbio que recombina o carro com o barco. Por fim, a mutação é talvez o mecanismo de geração do novo mais complexo, mas igualmente aquele que produz os resultados mais surpreendentes e inesperados.  

Partindo do conhecido, a mutação investe sobretudo no desconhecido, ou seja naquilo que podia ser e não naquilo que é. O exemplo é o Segway, que, derivando da noção de veículo urbano, resulta num objecto híbrido, com duas rodas, componentes motoras, aspecto de trotineta, uso da gravidade e um tipo de condução inovadora de tipo corporal. Um verdadeiro mutante urbano portanto.  

Uma nova cultura  

Aquilo a que chamamos cultura é genericamente o resultado da criatividade humana em todas as suas componentes. No entanto, historicamente deu-se uma espécie de afunilamento do conceito de cultura, separando-o do conhecimento científico e reduzindo-o à esfera das chamadas humanidades, conjunto de disciplinas em torno da condição e destino do ser humano. Esse processo conduziu também a uma sobrevalorização do emocional e mesmo a uma rejeição do tecnológico, considerado demasiado racional e frio. Acontece, porém, que nos últimos anos a preponderância tecnológica e os impressionantes avanços da ciência, em particular na biologia, conduziram à emergência de uma nova tendência cultural, assente não já nas humanidades, mas na ciência. Uma nova cultura do conhecimento tem vindo a desenvolver-se, muitas das vezes fora dos circuitos habituais da cultura convencional, recombinando conhecimentos científicos com criatividade artística. Ou seja, em que se misturam as características próprias das artes – o experimentalismo sem destino, a subjectividade – com a objectividade científica. Acresce que esta nova cultura é fundamental para o desenvolvimento de uma criatividade prática e tecnológica. Já que, como vimos, não basta criar um bonito embrulho, mas é preciso inovar também ao nível dos processos e das próprias tecnologias. Hoje não se consegue criar um novo produto sem pôr a conversar engenheiros com artistas.  

É por isso que também aqui escasseiam os espaços para desenvolver e apresentar esta nova cultura. No futuro, os Museus que não tenham uma forte componente de arte e ciência não conseguirão atrair visitantes.  

Conclusão  

Este Ano Europeu da Criatividade e da Inovação deve ser aproveitado para se fazer uma reflexão séria sobre algumas das questões aqui levantadas, nomeadamente em como criar as melhores condições, no País em geral e nas nossas cidades em particular, para que a criatividade se possa desenvolver e, sobretudo, manifestar. Nesse sentido, insisto na falta de espaços físicos, acessíveis e livres, para os mais jovens. Mas, para além da reflexão, é necessário agir. Desde logo, provocando uma alteração das mentalidades, do medo do risco, do secretismo, da fraca participação e da desconfiança face ao novo. A valorização da imaginação e da atitude criativa, nos indivíduos e nas organizações, deve ser assumida como um elemento fundamental da aprendizagem e do exercício profissional. Do mesmo modo que a promoção de uma cultura do conhecimento deve ser vista como a única forma de gerar desenvolvimento social e económico.  

A criatividade será a grande descoberta do século XXI.

Leonel Moura

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  1. Ano Europeu da Criatividade e da Inovação « LEONEL MOURA ARTe — 10 de Janeiro de 2009 @ 10:14

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